Maledicências e reticências
É tão cruel o julgamento que fazemos de alguém, quando o olhamos apenas pelos olhos do outro. Só vemos um lado da verdade. A verdade daquele de quem estamos próximos. Não olhamos para a realidade do outro que está à outra margem. Com isso,julgamos e damos sentença, ás vezes de morte. Morte de alma, de possibilidade de amizade. Com isso, vamos distribuindo as nossas opiniões de caráter do outro. Daquele que nunca nos aproximamos, principalmente nos momentos em que ele mais precisa: No enfrentamento com a sua própria miséria. É o pecado da maledicência. Com nossa opinião convicta de sábio juiz, que sabe discernir quem é bom e quem é ruim, vamos guiando outros cegos para aquele velho buraco.
Só existe uma Verdade Absoluta e, se chama DEUS...
Gosto de olhar para as pessoas ao meu redor. Vê-las como se movimentam, gesticulam, exibem seus comentários. Mas, preferencialmente gosto de enxergar o que há dentro do seu olhar, isso me traz momentos muito ricos de reflexão. Porém, não temos muito tempo para olhar e escutar. Também, estes momentos perdem um pouco da sua harmonia, ao escutar comentários que diminuem a dignidade do outro. Nessas horas, fico à espera de um trem que chegue logo e, me leve para outros lugares para contemplar a beleza de estar viva. Beleza esta contemplada a partir do olhar que eu tenho do mundo refletido em mim. Procuro a Beleza em tudo. A Beleza Verdadeira que é Cristo. E, se esta Beleza pode viver em nós, cada um A pode ter. Não a partir dos nossos méritos, mas a partir de Sua própria iniciativa de querer nos fazer belos. Por isso, a luta que dura a vida toda é que nos apeguemos a esta Beleza Verdadeira com toda força, com toda alma e, todo coração.
Mas, não sabemos amar, nem mesmo receber o amor. Se não sabemos amar, como poderemos experimentar? Quando falamos de amor, nos remetemos imediatamente ao coração. Que no sentido bíblico é centro de toda decisão. Podemos fazer semelhanças entre eles, se o amor passa pelo coração, que é o centro de toda decisão, então posso dizer que amor é uma decisão. Esta reflexão me leva direto ao conceito de amor de Ronaldo José no livro " O discípulo amado", que conceitua o amor como sendo "uma atitude pessoal e perene de esvaziamento em direção ao outro". Essa conceituação de amor, foi a mais perfeita que encontrei para minha forma de ver o mundo e viver a vida. Não entendo o amor como algo abstrato. Se Deus é AMOR, e sendo Ele Pessoa, então jamais o amor é abstrato para mim. O Amor é palpável, quase O posso tocar.
Outro dia, minha filha partilhou comigo, um diálogo envolvente entre crianças num momento de catequese, em que uma delas lhe entregava uma atividade com o nome de Deus com letra minúscula, a qual ela corrigiu dizendo que escrevesse com letra maiúscula. Neste instante, fez-se um silêncio interrogativo dessa petição, ao que quase num ímpeto, outra criança disparou: " -É claro nome de pessoas se escreve com letra maiúscula!". Isto foi tão inesperado quanto a reflexão que se seguiu em muitos corações naquele momento. É verdade, Deus é Pessoa. São reflexões e conclusões simples como estas,. que me fazem ser totalmente encantada pelas crianças.
Voltando ao coração, Deus vem nos dizer a partir do que Ele constatou: " Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. " Ezequiel 36, 26. Está aqui o mistério. Quantos de nós poderia dizer: Você precisa de um novo coração, tome o meu. Jesus fez isso por nós, não só nos dando um coração decidido, mas também nos dando um espírito ousado em ser livre para fazer tudo o que é certo. A entrega de vida total pelo outro. Aqui aprendemos que o novo coração de natureza divina passa habitar em nós. Nosso coração humano continua o mesmo, mas com uma nova capacidade: a de amar sem reservas, que antes não tinha.
Amar sem reservas: á Deus, e ao próximo com a mim mesmo. Nosso amor á Deus, na minha opinião se revela principalmente quando nos envolvemos com amor nos enfrentamentos com o outro, de modo a erguê-lo, ajudar a levantar-se, buscar com ele a dignidade perdida de filho amado de Deus. Sendo ele capaz de receber o novo Coração, assim como eu, tenho em qualquer pessoa a possibilidade de estar amando e sentir-me amado, seja ele quem for, enquanto viver, será sempre possibilidade de ser um com Cristo.
"...cegueira de espírito, [...] o amor desordenado de si mesmo, .... o apego a esta vida "